O Dia do Trabalhador não é apenas um dado no calendário é memória, é luta e é, sobretudo, um espelho das transformações sociais que atravessam gerações. Em Portugal, o dia 1.º de Maio traz consigo histórias de resistência, conquistas e também episódios marcantes que não devem ser esquecidos.
Eu completei 10 anos quando, pela primeira vez na minha vida, assisti na Avenida dos Aliados ao primeiro Dia do Trabalhador após a Revolução de Abril de 1974. Uma avenida com milhares e milhares de pessoas presentes, algo nunca visto até ali. Uma manifestação ímpar, como até hoje outra não vi.
Outra gravação que tenho deste dia, mas essa mais negativa, leva-me novamente ao Porto, cidade onde na altura Vivia, e também à Avenida dos Aliados. Foi um momento em que as duas centrais sindicais a UGT e a CGTP, fizeram convergir as suas manifestações para o mesmo espaço. Esse encontro, que poderia simbolizar unidade em torno da dignidade do trabalho, acabou por ficar manchado por um episódio trágico, a morte de um manifestante, ainda hoje gravado numa placa colocada na esquina da Rua Mouzinho da Silveira com a avenida que nos leva à Ponte D. Luís.
Esse dia me faz lembrar que a luta laboral nunca foi isenta de tensão e que, por vezes, o confronto de visões dentro do próprio movimento dos trabalhadores pode ter consequências dramáticas. Mais do que dividir, esse episódio ocorrido no início da década de oitenta, deve servir como reflexão sobre a importância do diálogo e da coesão na defesa de direitos comuns.
Se recuarmos ainda mais no tempo, encontramos os operários locais, homens e mulheres que, em fábricas, escritórios e campos, construíram com esforço as bases do que hoje consideramos os direitos adquiridos. Dias de trabalho intensos, muito baixos e ausência de proteção social foram a norma durante décadas.
Foi graças à sua persistência e à organização dos trabalhadores que nasceram conquistas como o horário de trabalho regulado, o descanso semanal, a proteção na doença e na velhice. Esses trabalhadores não tinham voz fácil, mas tinham determinação.
Hoje, os desafios são diferentes, mas não menos exigentes.
A precariedade laboral, os contratos temporários, e a crescente automação colocam novas questões. O trabalhador contemporâneo enfrenta uma realidade fragmentada, onde a estabilidade é muitas vezes instável pela incerteza. Paralelamente, surgem debates sobre equilíbrio entre vida profissional e pessoal, saúde mental e valorização salarial num contexto de aumento do custo de vida.
O Dia do Trabalhador deve, por isso, ser mais do que uma celebração, deve ser um momento de reflexão. Tem de haver uma consciência histórica, para honrar quem perdeu antes de nós. Uma consciência crítica, para analisar os problemas atuais. É uma consciência coletiva, para perceber que os direitos no trabalho não são garantidos para sempre, excluídos a vigilância, a participação e, acima de tudo, a união.
Porque, no fundo, a história do trabalho é a história das pessoas. E essa história continua a ser escrita todos os dias.
